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domingo, 12 de abril de 2020

ESTUDO 1 – MARCOS 1:1 – O PRINCÍPIO DO EVANGELHO DE JESUS CRISTO FILHO DE DEUS


INTRODUÇÃO


Vamos dar inicio ao estudo do Evangelho de Marcos. A autoria deste Evangelho é anônima, porém a tradição da Igreja é unânime em afirmar a autoria de Marcos. A afirmação mais antiga foi feita por Papias, bispo da Igreja em Hierápolis ( cerca de 140-135 d.C.). Este testemunho de Papias foi citado por Eusébio em História Eclesiástica e por isso foi preservada até hoje. Papias descreve Marcos como “o interprete de Pedro”.

AUTOR, DATA E CONTEXTO HISTÓRICO:

Possivelmente o Evangelho de Marcos foi escrito depois da morte de Pedro que se deu durante as perseguições do Imperador Nero por volta de 67 d. C. O capítulo 13 nos leva a crer que o Evangelho foi escrito antes de 70 d.C. quando se deu a destruição do templo, fato este que Jesus profetiza neste capítulo. A maior parte das evidências sustenta uma data entre 65-70 d.C.
Em 64 d.C Nero incendiou Roma e culpou a comunidade cristã . Foi desencadeada uma terrível perseguição contra os cristãos. Nesta perseguição Pedro e Paulo foram mortos. Foi neste contexto de perseguição e mortes que Marcos escreveu o seu Evangelho, as suas “boas novas”. Ele quer que seus leitores, os cristãos romanos especialmente, tomem a vida de Jesus Cristo como exemplo de coragem e força. No centro do Evangelho há uma declaração explicita de Jesus:
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“Começou então a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muitas coisas, que fosse rejeitado pelos anciãos e principais sacerdotes e pelos escribas, que fosse morto, e que depois de três dias ressurgisse”. (Marcos 8:31)
Este pronunciamento de morte é repetido em Marcos 9:31 e 10:32-34 e torna-se uma norma para o comprometimento no discipulado:
“E chamando a si a multidão com os discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”. (Marcos 8:34).
Marcos guia seus leitores para a cruz de Jesus Cristo onde eles descobrirão o significado e a esperança em seu sofrimento.
O Evangelho de Marcos é estruturado em torno dos vários movimentos geográficos de Jesus. Jesus está sempre em movimento. O clímax desta movimentação de Jesus será a sua morte e ressurreição.
A introdução do Evangelho são os 13 primeiros versículos (que estamos estudando).
Do cap. 1:14 – 9:50 – Marcos narra o ministério público de Jesus na Galiléia e Judéia (10-13).
O Evangelho encontra sua culminância na morte e ressurreição de Jesus (14-16).

O Evangelho pode ser visto como duas metades:

  • A confissão de Pedro de que Jesus era o Messias (8:27-30)
  • Primeiro anúncio de Jesus de sua crucificação (8:31)
Marcos é o menor dos Evangelhos e não contém nenhuma genealogia e não explica o nascimento de Jesus e de seu antigo ministério na Judéia.
1. É o Evangelho da ação:
Há um movimento muito rápido de uma cena para outra. É como se tivéssemos assistindo um filme da vida de Jesus.
Marcos usa como muita freqüência a palavra eutheos, que costuma ser traduzida por “imediatamente”. Esta palavra ocorre quarenta e duas vezes em Marcos,mais do que em todo o Novo Testamento.
2. É o Evangelho da vivacidade:
Marcos usa frases gráficas e surpreendentes para permitir ao leitor reproduzir a cena descrita. Os olhares e gestos de Jesus recebem atenção fora do comum. Marcos enfatiza pouco as leis e os costumes judaicos e sempre intepreta para o leitor o significado delas quando as usa. Isto demonstra que seu Evangelho foi dirigido para o mundo gentílico.
O Evangelho de Marcos ensina que o a vida do discipulado significa seguir a Jesus pelo mesmo caminho de mal-entendido e rejeição que ele sofreu. Para os seguidores de Jesus de todas as épocas é certo tanto o aviso quanto a promessa:
“E chamando a si a multidão com os discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, salvá-la-á”. (Marcos 8:34-35)
Marcos sublinha a necessidade de fé na pessoa, mensagem e poder de Jesus para ajudar os que precisam.
  • Fé no evangelho do Reino de Deus:
“e dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no evangelho” (1:15).
é para receber perdão de pecados e cura
“E Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados são os teus pecados” (2:15)
  • Fé para vencer as tempestade:
“E ele, levantando-se, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E cessou o vento, e fez-se grande bonança.
Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?” (4:40)
  • Fé para receber a cura e a ressurreição de mortos:
“Disse-lhe ele: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz, e fica livre desse teu mal.
O que percebendo Jesus, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente”. (5:34,36-37)
  • Fé para ser liberto de demônios
“Ao que Jesus lhes respondeu: ó geração incrédula! até quando estarei convosco? até quando vos hei de suportar? Trazei-mo.
Então lho trouxeram; e quando ele viu a Jesus, o espírito imediatamente o convulsionou; e o endemoninhado, caindo por terra, revolvia-se espumando.
E perguntou Jesus ao pai dele: Há quanto tempo sucede-lhe isto? Respondeu ele: Desde a infância;
e muitas vezes o tem lançado no fogo, e na água, para o destruir; mas se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos.
Ao que lhe disse Jesus: Se podes!-tudo é possível ao que crê.
Imediatamente o pai do menino, clamando, [com lágrimas] disse: Creio! Ajuda a minha incredulidade.
E Jesus, vendo que a multidão, correndo, se aglomerava, repreendeu o espírito imundo, dizendo: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai dele, e nunca mais entres nele.
E ele, gritando, e agitando-o muito, saiu; e ficou o menino como morto, de modo que a maior parte dizia: Morreu.
Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu; e ele ficou em pé” (9:19-27)
O Cristo encarnado que Marcos descreve é alguém que está disposto e que é capaz de ajudar aqueles em extrema necessidade.
Por fim o Evangelho de Marcos garante aos trabalhadores cristãos de todas as épocas que os mesmos milagres testemunhados que conferiram poderes ao ministério dos apóstolos continuarão como traços característicos do povo de Deus sob o Novo Testamento.
“E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas;
pegarão em serpentes; e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados”.(16:17-18)

III. O CRISTO REVELADO NO EVANGELHO DE MARCOS

Este livro não é uma biografia de Jesus. É uma história resumida da redenção. Marcos apresenta Jesus como Messias salvador da humanidade e,para isto seu argumento enfatiza alguns aspectos importantes da autoridade de Jesus Cristo:
1. Sua autoridade como Mestre
“E maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas.” (1:22)
Jesus é o Mestre dos mestres. Seus ensinamentos são tremendos e maravilhosos. Este versículo nos ensina algo acerca de Jesus como o Mestre dos Mestres:
a) Seus ensinos tocavam profundamente a vida das pessoas. Ao ouvirem seus ensinamentos a vidas delas eram transformadas. Você sabe que é Jesus que está ministrando quando sua vida é transformada através daquilo que você está ouvindo.
b) Jesus ensinava com quem tem autoridade. Os escribas ensinavam como quem tinha conhecimento, mas o ensino de Jesus ia além do conhecimento. Havia autoridade. Havia revelação. Quando Jesus está ensinando através de alguém poderemos perceber a autoridade de Jesus fluindo através do ensinamento.
c) A sua doutrina deixava as pessoas maravilhadas. Isto acontecia certamente porque havia um poder que era liberado que confirmava sua Palavra. Enquanto Jesus ensinava sua doutrina milagres aconteciam, pessoas eram curadas, vidas eram transformadas. E Ele deixou claro que isto também aconteceria com aqueles que iriam continuar a pregar o Evangelho do Reino em seu nome:
Eles, pois, saindo, pregaram por toda parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que os acompanhavam. (Marcos 16:20)
2. Sua autoridade sobre Satanás e os espíritos imundos
“E todos se maravilharam a ponto de perguntarem entre si, dizendo: Que é isto? Uma nova doutrina com autoridade! Pois ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!” (1:27)
3. Sua autoridade sobre o pecado
” Alguns dias depois entrou Jesus outra vez em Cafarnaum, e soube-se que ele estava em casa.
Ajuntaram-se, pois, muitos, a ponta de não caberem nem mesmo diante da porta; e ele lhes anunciava a palavra.
Nisso vieram alguns a trazer-lhe um paralítico, carregado por quatro;
e não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o paralítico.
E Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados são os teus pecados.
Ora, estavam ali sentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seus corações, dizendo:
Por que fala assim este homem? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão um só, que é Deus?
Mas Jesus logo percebeu em seu espírito que eles assim arrazoavam dentro de si, e perguntou-lhes: Por que arrazoais desse modo em vossos corações?
Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Perdoados são os teus pecados; ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito, e anda?
Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados ( disse ao paralítico ),
a ti te digo, levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa.
Então ele se levantou e, tomando logo o leito, saiu à vista de todos; de modo que todos pasmavam e glorificavam a Deus, dizendo: Nunca vimos coisa semelhante”. (2:1-12)
4. Sua autoridade sobre o sábado
“E prosseguiu: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.
Pelo que o Filho do homem até do sábado é Senhor”. (2:27-28)
5. Sua autoridade sobre a natureza
“Naquele dia, quando já era tarde, disse-lhes: Passemos para o outro lado.
E eles, deixando a multidão, o levaram consigo, assim como estava, no barco; e havia com ele também outros barcos.
E se levantou grande tempestade de vento, e as ondas batiam dentro do barco, de modo que já se enchia.
Ele, porém, estava na popa dormindo sobre a almofada; e despertaram-no, e lhe perguntaram: Mestre, não se te dá que pereçamos?
E ele, levantando-se, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E cessou o vento, e fez-se grande bonança.
Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?
Encheram-se de grande temor, e diziam uns aos outros: Quem, porventura, é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?” (4:35-41)
6. Autoridade sobre a doença
“Tendo Jesus passado de novo no barco para o outro lado, ajuntou-se a ele uma grande multidão; e ele estava à beira do mar.
Chegou um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo e, logo que viu a Jesus, lançou-se-lhe aos pés.
e lhe rogava com instância, dizendo: Minha filhinha está nas últimas; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare e viva.
Jesus foi com ele, e seguia-o uma grande multidão, que o apertava.
Ora, certa mulher, que havia doze anos padecia de uma hemorragia,
e que tinha sofrido bastante às mãos de muitos médicos, despendido tudo quanto possuía sem nada aproveitar, antes indo a pior,
tendo ouvido falar a respeito de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou-lhe o manto;
porque dizia: Se tão-somente tocar-lhe as vestes, ficaria curada.
imediatamente cessou a sua hemorragia; e sentiu no corpo estar já curada do seu mal.
E logo Jesus, percebendo em si mesmo que saíra dele poder, virou-se no meio da multidão e perguntou: Quem me tocou as vestes?
Responderam-lhe os seus discípulos: Vês que a multidão te aperta, e perguntas: Quem me tocou?
Mas ele olhava em redor para ver a que isto fizera.
Então a mulher, atemorizada e trêmula, cônscia do que nela se havia operado, veio e prostrou-se diante dele, e declarou-lhe toda a verdade.
Disse-lhe ele: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz, e fica livre desse teu mal”. (5:21-34)
I. Vamos pensar primeiramente sobre a situação daquela mulher:
a. Ela sofria de uma enfermidade por doze anos.
Assim também há pessoas que estão sofrendo por muitos anos. Sua situação era bastante desconfortável.
b. Ela procurou ajuda nos meios naturais
O resultado desta busca foi sofrimento e decepção.
c. Ela esgotou seus recursos na busca da cura para o seu mal
Perdeu muito dinheiro, esgotou seus recursos e perdeu tempo sem conseguir alcançar sua cura.
II. Passos dados pela mulher para alcançar sua cura:
a. Ela ouviu falar a respeito de Jesus
b. Ela enfrentou e venceu os obstáculos que se colocaram entre ela e sua cura [dor,fraqueza,multidão, distância].
c. Ela se programou para pensar no nivel da sua fé
d. Tocou em Jesus pela fé
e. Sentiu a manifestação do poder de Jesus
f. Ela sentiu que foi curada.
Quando ela tocou em Jesus imediatamente Ele sentiu que saiu poder dEle. Todas as vezes que tocarmos Jesus pela fé, o Seu poder será liberado em nosso favor.
A cura promovida por Jesus se manifesta através de três sinais
– Salvação;
– Paz;
– Liberdade.
7. Autoridade sobre a morte
“Enquanto ele ainda falava, chegaram pessoas da casa do chefe da sinagoga, a quem disseram: A tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre?
O que percebendo Jesus, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente.
E não permitiu que ninguém o acompanhasse, senão Pedro, Tiago, e João, irmão de Tiago.
Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, viu Jesus um alvoroço, e os que choravam e faziam grande pranto.
E, entrando, disse-lhes: Por que fazeis alvoroço e chorais? a menina não morreu, mas dorme.
E riam-se dele; porém ele, tendo feito sair a todos, tomou consigo o pai e a mãe da menina, e os que com ele vieram, e entrou onde a menina estava.
E, tomando a mão da menina, disse-lhe: Talita cumi, que, traduzido, é: Menina, a ti te digo, levanta-te.
Imediatamente a menina se levantou, e pôs-se a andar, pois tinha doze anos. E logo foram tomados de grande espanto.
Então ordenou-lhes expressamente que ninguém o soubesse; e mandou que lhe dessem de comer”.(5:35-43)
Este texto nos mostra como Jesus trata com a morte. A morte é um inimigo terrível. É o último inimigo a ser derrotado – 1Co 15:26.
Nós, seres humanos, nunca vamos aceitar a morte com naturalidade porque não fomos criados para morrer. Deus colocou a eternidade dentro de nós.
A morte física, bem como a morte eterna, é uma conseqüência direta do pecado – Rm 5:12.
Mas, para Jesus a morte não representa uma ameaça, pois Ele é o Senhor da vida.
Jairo estava enfrentando a luta contra a morte. Sua filhinha de doze anos estava morrendo. Vejamos como Jairo reagiu diante da morte:
.1. Ele veio e se prostrou diante de Jesus
2. Ele foi persistente – Muitas pessoas começam a morrer quando o médico declara o diagnóstico. Lembre-se que a última palavra não é a do médico, é a de Jesus. Diante da ameaça da morte temos que ser persistente.
3. Jairo confessou sua fé que Jesus iria curar sua filha – v. 23. E Jesus foi com ele.
Depois de todo esse esforço Jairo recebeu a noticia da morte de sua filha. Para as pessoas a luta havia terminado; a menina morreu.
Vejamos como Jesus agiu diante dessa situação:
a. Ele não fez caso do que as pessoas disseram;
b. Ele orientou Jairo a não temer, mas crer.
c. Não permitiu que os incrédulos o seguissem.
d. Para Jesus a morte nada mais do que um sono
e. Ao seu comando a morte entrega a sua vitima
Jesus é o Senhor sobre a vida e a morte. Ao seu comando a morte cessa e a vida continua.
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<!–[if !supportLists]–>8. <!–[endif]–>Autoridade sobre as tradições legalistas
Foram ter com Jesus os fariseus, e alguns dos escribas vindos de Jerusalém,
repararam que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar.
Pois os fariseus, e todos os judeus, guardando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar as mãos cuidadosamente;
e quando voltam do mercado, se não se purificarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como a lavagem de copos, de jarros e de vasos de bronze.
Perguntaram-lhe, pois, os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos anciãos, mas comem o pão com as mãos por lavar?
Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim;
mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.
Vós deixais o mandamento de Deus, e vos apegais à tradição dos homens.
Disse-lhes ainda: Bem sabeis rejeitar o mandamento de Deus, para guardardes a vossa tradição.
Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá.
Mas vós dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor,
não mais lhe permitis fazer coisa alguma por seu pai ou por sua mãe, (7:1-13)
E chamando a si outra vez a multidão, disse-lhes: Ouvi-me vós todos, e entendei.
Nada há fora do homem que, entrando nele, possa contaminá-lo; mas o que sai do homem, isso é que o contamina.
(Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.)
Depois, quando deixou a multidão e entrou em casa, os seus discípulos o interrogaram acerca da parábola.
Respondeu-lhes ele: Assim também vós estais sem entender? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar,
porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e é lançado fora? Assim declarou puros todos os alimentos.
E prosseguiu: O que sai do homem , isso é que o contamina.(7:14-20)
Muitos hoje em dia pensam que estão servindo a Deus, mas são sinceros equivocados. Os fariseus eram assim. Eles achavam que amavam a Deus, mas eram prisioneiros de tradições humanas. Não podemos confundir religião com cristianismo. A religião nada mais é do que a tentativa humana de se chegar a Deus. O cristianismo é Deus vindo ao encontro do homem através de Jesus Cristo.
Os fariseus nos ensinam como é uma pessoa prisioneira de tradições humanas:
a. Reparam naqueles que agem de maneira contrária á sua tradição
b. Observam fielmente cada detalhe da tradição que abraçaram
c. São criticos em relação àqueles que não praticam suas tradições
d. Honram a Deus com os lábios, mas não com o coração. Sua vida com Deus é superficial.
e .Negligenciam o mandamento de Deus para guardar suas tradições.
f. Com muito jeito, rejeitam a vontade de Deus.
Jesus veio nos libertar das tradições humanas, da religiosidade. Cristianismo é um estilo de vida altamente radical e revolucionário. O segredo para Jesus vencer o tradicionalismo é a vida no Espírito.
Jesus nos dá três ordens para quem quiser vencer o tradicionalismo:
1. Um coração totalmente voltado para o Senhor – Marcos 12:33
” e que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios”.
a) Cristianismo á amar a Deus de todo o entendimento e de toda a força
b) Cristianismo é amar o próximo como a si mesmo
c) Fazer estas duas coisas é maior do que exercícios religiosos.
2Ser um verdadeiro adorador – João 4:23
“Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores”.
Cristianismo envolve a adoração sincera a Deus. Adorar a Deus não significa cantar ou levantar as mãos. Isto são atos externos. Adoração vem do íntimo do coração.É fruto de intimidade com Deus.
Deus não procura cantadores, Ele busca adoradores.
3. Andar no Espírito para vencer a vontade egoística da carne – Gálatas 5:16
“Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne”.
Andar no Espírito é o segredo para vencer o legalismo.
O que é legalismo?
“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!
Porque será como o arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes, morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável”. Jeremias 17:5-6
Paulo também trata da questão e declara malditos os que confiam na carne e se apartam do caminho da fé, substituindo-o pelas práticas legalistas que levam à auto justiça e confiança própria julgando que tais coisas os tomam aceitáveis diante de Deus (Gaiatas 3:1-10; 1:6-9).
O legalismo é uma tentativa de apresentar uma solução diferente da que foi provida por Deus para que se alcance a justiça.
“Colocar a habilidade humana no lugar da graça divina é exaltar o que é carnal acima do que é espiritual. O efeito se manifestará nas seguintes áreas. Por exemplo:
a teologia se exaltará acima da revelação;
a educação intelectual acima da edificação do caráter;
a psicologia acima do discernimento;
o programa acima da liderança do Espirito Santo;
a eloquência acima do poder sobrenatural;
o raciocínio acima do caminhar da fé;
as leis acima do amor”. (Derek Price)
Ser cristão não é seguir normas, não um código de posso ou não posso. Ser cristão é andar no Espírito e fazer a vontade de Deus. A coisa mais importante para um cristão é saber que está no centro da vontade de Deus.
Jesus tem autoridade para nos libertar de práticas legalistas.Por isso Ele nos convida andar com Ele, tendo intimidade com Ele. Santidade não fazer as coisas certas; Santidade é andar com Deus.
9. Sua autoridade sobre o templo
“Chegaram, pois, a Jerusalém. E entrando ele no templo, começou a expulsar os que ali vendiam e compravam; e derribou as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendiam pombas;
16 e não consentia que ninguém atravessasse o templo levando qualquer utensílio;
17 e ensinava, dizendo-lhes: Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? Vós, porém, a tendes feito covil de salteadores.
18 Ora, os principais sacerdotes e os escribas ouviram isto, e procuravam um modo de o matar; pois o temiam, porque toda a multidão se maravilhava da sua doutrina”.
(11:15-18)

IV. JESUS, O FILHO DE DEUS

O titulo de abertura do Evangelho de Marcos nos fornece a tese central em relação à identidade de Jesus como filho de Deus
“Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”.(1:1)
a) Tanto o batismo quanto a transfiguração testemunham da Sua qualidade de Filho
“…e ouviu-se dos céus esta voz: Tu és meu Filho amado; em ti me comprazo”. (1:11)
“Nisto veio uma nuvem que os cobriu, e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi”(9:7).
b) Em duas ocasiões os espíritos imundos o reconhecem como Filho de Deus
“E os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e clamavam, dizendo: Tu és o Filho de Deus”. (3:11)
“…e, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes”. (5:7)
c) A parábola dos lavradores malvados faz alusão à qualidade de Filho Divino de Jesus
“Ora, tinha ele ainda um, o seu filho amado; a este lhes enviou por último, dizendo: A meu filho terão respeito”. (12:6)
d) A narrativa da crucificação termina com a declaração do centurião:
“Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”. (15:39)
Vejamos agora algumas implicações destas afirmações acerca de Jesus para as nossas vidas:
1. Jesus foi reconhecido publicamente como Filho de Deus no momento de seu batismo. Isto significa que o batismo é o momento do reconhecimento publico de nossa filiação divina. Mas o batismo é apenas a porta de entrada para o Reino de Deus. Precisamos entender que Deus quer mais de nós.Jesus estava no monte tratando de assuntos referentes ao Reino de Deus.
Há pessoas que são batizadas e perdem seu referencial de filhos de Deus. Porque normalmente, os filhos estão envolvidos com o negócio de seu pai.E o negócio de nosso Pai é o Reino de Deus.
Quando não estamos envolvidos com o Reino de Deus invalidamos nosso batismo e negamos nossa filiação.
2. Os espíritos imundos reconheciam a filiação de Jesus. Da mesma forma eles reconhecem a autoridade dos filhos de Deus. Se estamos envolvidos no negócio de nosso Pai, temos autoridade para expulsar demônios no nome de Jesus.
“Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas”. (Lucas 9:1)
“Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano” (Lucas 10:19).
3. Jesus nos mostra através da parábola dos lavradores malvados que Deus confia no Seu Filho e, por isso O enviou para cumprir a difícil tarefa de salvar a humanidade. Da mesma forma Deus confiou a Seus filhos a tarefa de dar continuidade a tarefa que Seu filho iniciou.
Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mateus 28:18-20)
A Grande Comissão é uma tarefa que somente será cumprida pelos filhos de Deus. Um dos sinais claros de que uma pessoa é filho de Deus é que esta pessoa ama as almas perdidas e está fazendo algo para leva-las a Cristo.
4. A cruz é o lugar onde pessoas incrédulas reconheceram que Jesus é o Filho de Deus. A marca registrada de um filho de Deus é a vida crucificada. As pessoas precisam ver em nós a marca da cruz para reconhecer nossa filiação divina. Precisamos encarar a realidade de que a experiência de Paulo deve ser a nossa experiência:
“…logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”. (Gálatas 2:20)
V. JESUS O FILHO DO HOMEM
O titulo que Jesus mais usava para referir a si mesmo era “Filho do Homem”. Ele faz uso deste título por catorze vezes em Marcos. Como designação para o Messias esse título não era tão popular entre os judeus. Um título bem mais popular por ser altamente nacionalista era “Filho de Davi”. Mas, Jesus escolhe o título “Filho do Homem” para revelar e para esconder seu messianismo e relacionar-se tanto com Deus quanto com o homem.
Marcos sugere que os discípulos de Jesus deveriam ter um amplo discernimento do mistério da Sua identidade.
A segunda vinda do Filho do Homem vai revelar totalmente seu poder e glória.

VI. O ESPÍRITO SANTO NO EVANGELHO DE MARCOS

Marcos recorda da profecia de João Batista de que Jesus “… vos batizará no Espírito Santo ( 1:8). Os crentes serão totalmente imersos no Espírito Santo como os seguidores de João foram imersos nas águas do Rio Jordão.
O Espírito Santo desceu sobre Jesus em seu batismo (1:10). Ao descer sobre Jesus o Espirito Santo O habilitou para cumprir o seu ministério messiânico de cumprimento da profecia de Isaías
“Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem se compraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele. ele trará justiça às nações”. (Isaías 42:1)
“Chegai-vos a mim, ouvi isto: Não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que aquilo se fez, eu estava ali; e agora o Senhor Deus me enviou juntamente com o seu Espírito”. (Isaías 46:18)
“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes;…” (Isaías 61:1-2)
<!–[if !supportLists]–>· <!–[endif]–>Marcos declara graficamente que Jesus foi impelido pelo Espírito para o deserto, para que fosse tentado (1:12). Esta declaração sugere a urgência por encontrar e vencer as tentações de Satanás que queriam corrompe-lo antes que Ele embarcasse em sua missão de destruir o poder do inimigo nos outros.
O pecado contra o Espírito Santo é colocado em contraste como todos os demais pecados
(3:28- 29)
“Em verdade vos digo: Todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, bem como todas as blasfêmias que proferirem; mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão, mas será réu de pecado eterno”.
Jesus também se refere à inspiração do Antigo Testamento pelo Espírito Santo
“O próprio Davi falou, movido pelo Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés”. (12:36).
Um grande estímulo aos cristãos que enfrentam a hostilidade de autoridades injustas é a garantia do Senhor de que o Espírito Santo falará através deles quando testemunharem de Cristo.
Quando, pois, vos conduzirem para vos entregar, não vos preocupeis com o que haveis de dizer; mas, o que vos for dado naquela hora, isso falai; porque não sois vós que falais, mas sim o Espírito Santo. (13:11)

CAMINHO O CAMINHO (em MARCOS)

 O CAMINHO (em MARCOS)


Marcos usa “CAMINHO” 14 vezes: duas vezes como anúncio de João Batista: Mc 1,2; 1,3; e mais 12 vezes referindo-se ao próprio caminho de Jesus  2,23;  6,8;  8,3;  8,27; 9, 33;  9, 34; 10,17; 10,32;  10, 46; 10,52;  11, 8; 12,14. Marcos usa esta palavra mais duas vezes na parábola do semeador referindo-se a semente no CAMINHO: Mc 4,4; 4,15.
O CAMINHO pode ser considerado como tudo que se faz para construir o REINO DE DEUS, ou melhor dizendo, tudo que se faz para podermos VIVER EM PAZ UNS COM OS OUTROS (Cf. 9,50c)

VEJA OS TEXTOS em MARCOS

1.         1,2 Como está escrito no profeta Isaías: “Eis que eu envio o meu mensageiro na tua frente, para preparar o teu caminho(o`do.n) (1/14).

2.         1,3 Esta é a voz daquele que grita no deserto: Preparem o caminho (o`do.n)  (2/14) do Senhor, endireitem suas estradas!”

3.         2,23 Num dia de Sábado, Jesus estava passando por uns campos de trigo. Os discípulos iam abrindo caminho (o`do.n) (3/14), e arrancando as espigas.

4.         6,7 Chamou os doze, começou a enviá-los dois a dois e dava-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. 8 Recomendou que não levassem nada pelo caminho (o`do.n) (4/14), além de um bastão;     nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura.

5.         8,2     “Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer. 3 Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho (o`dw) (5/14), porque muitos deles vieram de longe.”

6.         8,27 JESUS partiu com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe. No caminho (o`dw) (6/14), ele perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que sou?”

7.         9,33 Quando chegaram à cidade de Cafarnaum e estavam em casa, perguntou-lhes:  “Sobre o que vocês estavam discutindo no caminho (o`dw) (7/14)?”

8.         9,34 Eles ficaram calados, pois no caminho (o`dw) (8/14) tinham discutido sobre qual deles era o maior.
  
9.         10,17 Quando retomou o caminho (o`do.n) (9/14), um homem foi correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou:  “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?”

10.     10,32  Estavam a caminho (o`dw) (10/14), subindo para Jerusalém.  JESUS ia na frente. Eles estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo. Chamou de novo  os Doze à parte  e começou a dizer-lhes o que estava para acontecer com ele:  33  “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos Chefes dos Sacerdotes e aos Doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos.  34 Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo. E depois de três dias ele ressuscitará.”

11.     10,46 Chegaram a Jericó. Saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. Na beira do caminho (o`do.n) (11/14) havia um cego que se chamava Bartimeu, o filho de Timeu; estava sentado, pedindo esmolas. 47 Quando ouviu falar que era JESUS Nazareno que estava passando,  o cego começou a gritar: “JESUS, filho de Davi, tem piedade de mim!”  48 Muitos o repreendiam  e mandaram que ficasse quieto.  Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!”  49 Então JESUS parou e disse:  “Chamem o cego.” Eles chamaram o cego e disseram: “Coragem, levante-se, porque está chamando você.” 50 O cego largou o manto, deu um pulo e foi até JESUS.

12.     10,51 Então JESUS lhe perguntou:  “O que você quer que eu faça por você?”  O cego respondeu: “Mestre, eu quero recuperar a vista.” 52 JESUS disse:  “Vai, a sua fé curou (=salvou) você.” Logo o cego tornou a ver e seguia Jesus pelo caminho (o`dw) (12/14).

13.     11,8 E muitas pessoas estenderam seus mantos pelo caminho (o`do.n) (13/14);   outros puseram ramos que haviam apanhado nos campos.
  
14.     12,13 Então os chefes dos sacerdotes, doutores da lei e anciãos  mandaram alguns dos fariseus e dos herodianos, para apanhá-lo em alguma palavra. 14 Quando chegaram, disseram: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, porque não dás preferência a ninguém. Com efeito, não levas em conta as parências, e ensinas de verdade o caminho (o`do.n) (14/14) de Deus. Dize-nos:  é lícito ou não pagar tributo a César? Devemos pagar ou não?”
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Desde Lucas 9,51 que Jesus está decididamente A CAMINHO de Jerusalém. E assim continuará até Lucas 19,28. Com este belo recurso à tipologia do CAMINHO (hodós) e do verbo CAMINHAR (poreúomai), Lucas exemplifica e clarifica o modo cristão de viver. Porque todo o CAMINHO abre o mundo ao meio, ao mesmo tempo que vai desenhando e atualizando a nossa vida em duas partes: «para a frente» e «para trás». Note-se que Lucas é, de longe, o Autor do Novo Testamento que mais vezes usa estes vocábulos, sensivelmente 40 em 100 vezes «caminho» (hodós), e 88 em 150 vezes «caminhar» (poreúomai). Num mundo plano como o nosso, o Evangelho de Lucas rasga CAMINHOS e procede a verdadeiras operações de CORAÇÃO aberto. CAMINHO que abre CAMINHOS novos, novas maneiras de viver, com Jesus, que é o CAMINHO, sabe o CAMINHO, mostra o CAMINHO e faz o CAMINHO, a enxertar a plenitude nesta nossa imensa e chata planitude.

Antônio Couto (Mesa da Palavra)

Conhece-se o(a) seguidor(a) de Jesus pelos pés



Pe. Adroaldo Palaoro sj

 “E Ele percorria os povoados da região, ensinando” (Mc 6,6)

“Adeptos(as) do Caminho”: assim eram conhecidos os(as) primeiros seguidores(as) de Jesus (At 9,2). Assim também quer Jesus que sejamos seguidores seus, sempre em caminho, em todos os lugares, em todas as casas de passagem, dispostos a parar e conversar, prontos ao encontro e à solidariedade com todos os que vão e vem pela vida.
Deveríamos voltar a recuperar o sentido desta expressão (“adeptos do Caminho”), pois ela nos convida a continuar percorrendo o caminho cotidiano da existência de uma maneira cristificada; e isto é algo fundamental para o encontro profundo com o outro, com as alegrias e os sofrimentos daqueles que se encontram às margens, com a novidade e a surpresa da senda da vida, com o desafio de prosseguir confiando na Boa Notícia de Jesus, que se manteve sempre em caminho pelas estradas da Palestina, para levantar os feridos, oprimidos e excluídos do sistema social e religioso. 
Hoje como ontem, sair, caminhar, deslocar-se, ser itinerante… tem sentido, porque significa ir ao encontro do novo e do diferente. “Sair” é também uma experiência constitutiva da natureza humana porque tem um ar transformador. Cada um, ao longo do caminho, experimenta “novos modos” de habitar a existência, de olhar-se, pensar e relacionar-se.  A itinerância permite ir mais além de si mesmo para encontrar outras maneiras de viver, para entrar em outras terras prometidas, para aproximar-se de outras pessoas, povos, culturas, onde encontrar o sentido de vida; sobretudo, possibilita ir ao encontro d’Aquele que nos transcende e sempre se revelou Peregrino. 
A vida humana, neste sentido, é caminho, com um ponto de partida, uma meta, um trajeto e um horizonte. Caminho, palavra familiar e também humilde que evoca a existência de uma origem e um destino e, entre ambos, de uma aventura: a aventura de nosso caminhar, feita de desafios e extravios, e também de encontros e de momentos inesquecíveis que nos confortam ao longo do percurso. 
Todos somos “peregrinos” neste “êxodo de nós mesmos para Deus”, no qual nos “adentramos em terra estranha, despojados dos suportes usuais da existência, desprovidos de todo amparo que não seja o da caridade…” (Tellechea Idógoras). 
Quem caminha calcula seu trajeto, suas próprias forças, fadigas, planeja suas paradas. Por outra parte, decide correr o risco de sair de sua zona de conforto, para abrir-se à paisagem de novas relações, ao inesperado e inexplorado, a novos encontros e sensações, a confiar e percorrer a própria existência. O caminho é um processo de mudança pessoal, um lugar pedagógico de cura, de aprendizagens, abertas ao assombro, a um olhar dinamizador, à liberdade de pensamento e de ação. Ele nos move a dilatar o coração e interessar-nos pela situação das demais pessoas, a aproximarmos dos(as) samaritanos(as) que encontramos nas idas e vindas. Porque o caminho é a ocasião, o Kairós, o tempo pedagógico de um movimento que vivifica, deixa pegada e sabor de um outro sentir. 
Podemos dizer que na Igreja são imprescindíveis os itinerantes, os peregrinos do Reino de Deus, como o próprio Jesus, que enviou discípulos e discípulas pelos caminhos e povos, sem nenhuma estrutura de apoio a não ser um coração disposto a não querer outra riqueza a não ser o fermento de nova humanidade. Com os itinerantes Jesus iniciou um movimento a serviço do Reino e Ele mesmo foi um itinerante. Não permaneceu numa casa, não se fechou em um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou santuário, mas foi percorrendo, com um grupo de discípulos(as)/amigos(as), também itinerantes, os povoados e aldeias da Galileia, anunciando e tornando presente o Reino. Jesus os tirou de seus lugares estáveis, de suas simples redes da margem do mar, e os fez itinerantes através de outros e amplos caminhos e mares, para assim encontrar-se com os caminhantes, os perdidos e expulsos, e iniciar com eles a grande Marcha da Vida. 
Jesus, o Homem dos Caminhos, chama para uma Vida nova. Chama na vida e para a vida e põe as pessoas em movimento, a caminho. A “pegada” que Ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada. Ele é o inspirador de toda itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos.
Jesus, o homem que se definiu, tem um sonho, um projeto (Reino). E surge diante dos outros com força pessoal capaz de sacudi-los e colocá-los em movimento.  Ele “passa” e sua presença os atrai arrancando-os da acomodação. Faz-se do chamado um caminho, quando se partilha a vida com quem chamou. Responder ao chamado feito por Jesus significa tornar esse chamado um caminho de entrega e de serviço.
                                                    
Jesus nos apresenta uma causa muito nobre e, com seu chamado, rompe nosso estreito mundo e desperta em nós ricas possibilidades, reacende o que de mais nobre há em cada um e amplia nosso horizonte de vida. Para isso é preciso sair dos templos que pretendem fechar e aprisionar o Espírito, para dirigir-nos aos caminhos do mundo, para entrar em sintonia com o Coração e o Manancial da Vida, “em espírito e verdade”, tocando a carne concreta da Humanidade e da Mãe Terra. 
“Chamado-resposta” implica, pois, um encontro comprometedor. O modo de ser de Jesus, transparente e livre, ativa nossa vida atrofiada e estreita e nos capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído… A ressonância de seu chamado nos predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que nos permitam peregrinar e viver no contexto atual com amor, entusiasmo e criatividade. Jesus envia seus discípulos com o necessário para caminhar: cajado, sandálias e uma túnica. Não precisam de mais nada para serem testemunhas do essencial. Jesus quer vê-los livres e sem ataduras, sempre disponíveis, sem instalar-se no bem-estar, confiando na força do Evangelho. 
“O discípulo-missionário é um des-centrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco) 
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para enfrentarmos o novo… 
É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências… Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer… A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderemos e nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples… 
A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida. 
Texto bíblico:  Mc. 6,7-13  
Na oração:
- Nas nossas vidas acontece algo de verdadeiro e belo quando nos dispomos a buscar dentro de nós mesmos a razão da nossa existência.
- No “mapa espiritual” de nosso interior ainda existe uma “terra desconhecida”, que proporciona interesse à vida, suscita curiosidade, nos põe a caminho…  Grandes surpresas interiores estão à nossa espera, e a capacidade de continuar procurando é que dá sentido ao esforço e vigor à vida.
- A quê você se sente chamado(a)? A quem se sente enviado(a)?

sábado, 11 de abril de 2020

No caminho de Jesus: Uma leitura do Evangelho de Marcos

No caminho de Jesus: Uma leitura do Evangelho de Marcos

Por Maria Antônia Marques
 


“Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). O relato do Evangelho de Marcos se inicia com uma proposta de felicidade. É um novo começo marcado por um anúncio alegre e esperançoso. A boa-nova é de Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele proclama a proximidade do reino: “Cumpriu-se o tempo, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15).
Jesus, com sua vida e prática, realizou o reino de Deus, abrindo espaços de vida para os pobres e marginalizados, porém, não compreendido [f1] pelos poderosos do seu tempo, foi perseguido e morto. A morte de Jesus foi um choque para os que esperavam que ele fosse um Messias poderoso e provocou a fuga de seus seguidores e seguidoras.
Mas, aos poucos, as pessoas que tinham experimentado uma vida nova com Jesus começaram a se reunir em pequenos núcleos que recordavam sua prática e ensinamentos à luz do Antigo Testamento. Assim, as primeiras comunidades cristãs compreenderam que Jesus era o servo sofredor: “O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8,31; cf. Is 42,1-9; 52,13-53,12). No meio da febre messiânica de um rei poderoso, que viria para destruir os dominadores e instaurar o reino de Deus, a comunidade cristã teve dificuldades de manter e pregar Jesus como o Messias servo.
No século I, a dominação romana com seus impostos abusivos e o sistema religioso de Jerusalém tornaram-se insustentáveis. A realidade ia de mal a pior. Na Palestina, a repressão das autoridades contra as revoltas populares era violenta, um verdadeiro massacre, e muitos grupos de judeus foram dizimados. A população foi deixada à própria sorte. Nesse contexto, renasceu o nacionalismo judaico: a espera de um Messias rei. Para orientar a comunidade cristã, que também estava assumindo essa mentalidade, a liderança que escreveu o Evangelho de Marcos sentiu a necessidade de apresentar Jesus como o Messias servo, que foi crucificado por ter assumido a causa da justiça até o fim, mas a quem Deus ressuscitou (cf. Mc 9,30-32; 10,32-34).
O Evangelho de Marcos foi escrito entre os anos 65 e 70 d.C. A mão de ferro do império foi ainda mais pesada para os judeus e os cristãos. Em Roma, a comunidade cristã sofreu a perseguição de Nero (66 d.C.). Em vários pontos do império surgiram levantes dos judeus, sendo o principal na Palestina, conhecido como a Guerra Judaica, entre os anos 66-73 d.C. O medo era constante. Guerras, massacres, fome e aflições faziam parte do dia a dia das pessoas.

1. Situando o Evangelho de Marcos
            O Evangelho de Marcos é uma obra anônima; não existe apresentação do sujeito que fala nem sequer dos objetivos desse escrito, que somente serão descobertos na própria leitura. O que importa é a mensagem a ser comunicada: o evangelho. Marcos é nome de origem romana; porém essa assinatura é secundária, conhecida desde Irineu, no fim do século II.
Em relação à origem do Evangelho de Marcos, alguns afirmam que foi em Roma, logo após o martírio de Pedro, em 64 ou 67, outros a situam na Síria. Atualmente, os estudiosos acreditam que esse escrito tenha surgido na Galileia, hipótese que se apoia no fato de essa região ser o principal local da atividade missionária de Jesus. Há algumas informações que fortalecem essa teoria, por exemplo:

  1. A atividade de Jesus: no Evangelho de Marcos, na maior parte de sua missão, Jesus atua na Galileia e nos seus arredores.
  2. O autor conhece as tensões existentes na Palestina e entre os diversos grupos e regiões. Para ele, os adversários de Jesus na Galileia vêm de Jerusalém (Mc 3,22; 7,1). Ele sabe que a Palestina e as regiões limítrofes não estão habitadas somente por judeus (Mc 7,24-25).
  3. Destinatário: embora haja judeus na comunidade de Marcos, os principais destinatários são gentios, pois o autor explica certos costumes e práticas judaicas – por exemplo, a lei do puro e do impuro (Mc 7,1-23) –, como também o uso de termos aramaicos e sua tradução em momentos-chave da narrativa, como: Talitha kum, “menina, levanta-te” (Mc 5,41); Effatha, “abre-te” (Mc 7,34); Abba, “pai” (Mc 14,36); e Eloi, Eloi, lemá sabachtáni, “meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes” (Mc 15,34).

Com base nessas informações, acreditamos que o Evangelho de Marcos foi escrito na região da Galileia, destinado às comunidades localizadas na região da Síria, de Tiro e da Decápolis.

2. Pisando o chão da comunidade de Marcos
Desde 63 a.C., os romanos dominaram a Palestina. As províncias da Galileia, da Pereia, da Idumeia e da Judeia passaram a pagar tributos ao império. O povo passou a ser violentamente explorado por meio da cobrança abusiva de impostos e do monopólio do comércio. Essa situação gerou muitas revoltas, principalmente na Galileia. Qualquer revolta dentro do império era terminantemente sufocada por meio de forte aparato repressor. A região de Israel representava apenas 1% do território romano e havia 8% das tropas do exército romano acampadas na região. Várias cidades da Galileia foram incendiadas e destruídas, e suas populações foram vendidas como escravas ou mortas.
Em torno do ano 40 a.C., por sua fidelidade às políticas de paz de Augusto, Herodes Magno foi reconhecido como rei dos judeus, exercendo o governo de forma tirânica e opressora. Seguindo o exemplo do imperador Augusto, Herodes reconstruiu várias cidades; por exemplo, no lugar de Samaria, a antiga capital do Norte, fundou Sebaste – tradução grega de Augusto –, onde havia um grande teatro e um templo dedicado ao imperador. No seu reinado, várias cidades helenísticas foram reconstruídas ou revitalizadas, entre as quais Cesareia, em homenagem a César Augusto. A fronteira oriental do seu reino, inclusive a fortaleza de Massada, foi reforçada.
Herodes gastou enormes quantias de dinheiro com as construções da cidade de Jerusalém, principalmente com o Templo, totalmente reconstruído, uma reforma que terminou pouco tempo antes da Guerra Judaica (66-73 a.C.). Devia ser uma construção suntuosa, pois sua beleza e esplendor permaneciam no imaginário das primeiras comunidades cristãs (cf. Mc 13,1-2; Mt 24,1; Lc 21,5-7).
O sistema de fiscalização de impostos, instituído por Herodes e seus partidários, era muito rígido. O povo tinha de pagar aos romanos o imposto sobre 25% das colheitas, o pedágio para a circulação de pessoas e mercadorias e dedicar um tempo de trabalho forçado para as tropas. Além do sistema de cobrança dos romanos, existiam os impostos do Templo: o imposto pessoal, estipulado em um denário – o equivalente à diária de um trabalhador; os vários dízimos, como, por exemplo, das colheitas, a parte destinada aos pobres; e, a cada sete anos, o produto referente a um ano de trabalho.
Nesse caldeirão de opressão surgiram muitos focos de revolta. Porém o controle de Herodes Magno era muito rígido, e os protestos eram sufocados. Após sua morte, a Palestina foi dividida em três regiões ou províncias. Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.) ficou como tetrarca da Galileia e da Pereia ou Transjordânia do Sul, Filipe assumiu a Transjordânia do Norte e Arquelau ficou com a Judeia e a Samaria.
Na tentativa de agradar ao povo judeu e ao império romano, Herodes Antipas empreendeu grandes construções conforme os padrões helenísticos, como a reconstrução de Séforis e a fundação da cidade de Tiberíades, em 19 d.C., transformando-a em capital de sua província. A maioria da população de Tiberíades era constituída de gentios de diversas regiões, aí se falava o grego, o aramaico e o latim. Na cidade havia teatros, banhos públicos e estádios. Estava situada entre o mar da Galileia e a cidade de Cesareia, no Mediterrâneo.
Herodes Antipas chegava a receber em torno de 200 talentos por ano, o equivalente a 1,2 milhão de denários, referentes ao imposto da pesca. A moeda era necessária para o pagamento dos impostos e a compra de produtos e serviços (Mc 12,15-17). Crescia o número de pessoas endividadas e escravizadas. Uma pequena minoria, cerca de 5%, esbanjava luxo, mas a maioria experimentava pobreza e miséria. O cenário era de doença e escravidão. Muitas pessoas empobrecidas perambulavam pelas praças e mercados, sem terra e sem emprego (cf. Mt 20,1-9). A situação dos pobres se complicava ainda mais por causa da cultura e religião da época.
De acordo com a mentalidade grega, os pobres eram considerados vagabundos ou pessoas não agraciadas pelas divindades. Os romanos, seguindo a mesma mentalidade grega, acreditavam que o trabalho era próprio dos escravos. Para impedir qualquer tipo de revolta, havia o sistema do clientelismo, também conhecido como patronato.
O clientelismo era baseado nas relações de troca. Alguém do estrato superior beneficiava uma pessoa do estrato inferior, que se tornava cliente de seu benfeitor. O prestígio e a honra de um cidadão eram medidos com base no número de clientes que possuía. Por sua vez, o cliente tinha várias obrigações com o seu patrono – por exemplo, estar presente nos banquetes patronais, acompanhar seu patrono nas aparições públicas e aplaudir seus discursos. No império romano, a ingratidão de um cliente ao seu patrono era considerada pior do que roubo e homicídio. Hoje, em linguagem popular, diríamos que é o bajulador ou o puxa-saco, com a diferença de que essa relação estava presente em todos os setores da sociedade. Esse sistema não favorecia os pobres, mas reforçava a situação de injustiça e perpetuava a submissão.
Na cultura judaica, a partir da consolidação da teologia da retribuição no exílio e no pós-exílio, a pobreza constantemente era associada com castigo de Deus. De acordo com essa teologia, Deus recompensava a pessoa justa com vida longa, riqueza e descendência. O caminho da sabedoria era seguir a Lei; assim afirma o livro dos Provérbios: “Em sua direita: longos anos; em sua esquerda: riqueza e honra! Seus caminhos são caminhos deliciosos, e os seus trilhos são prosperidade” (Pr 3,16-17).
No século I havia muitas pessoas pobres e doentes. Uma pessoa com lepra era considerada morta. Qualquer doença de pele, contagiosa ou não, era classificada como lepra. Havia muitas pessoas aleijadas, epiléticas e hidrópicas. Doenças mentais e psíquicas eram associadas com o demônio; por exemplo, os casos de mudez, surdez, epilepsia, esquizofrenias e até mesmo a depressão ou falta de motivação.
No tempo de Jesus e das primeiras comunidades, as leis referentes à pureza marginalizavam os doentes leprosos (Lv 13 e 14). Todos os líquidos relacionados com a reprodução que saíam do corpo humano provocavam impureza. A pessoa impura estava excluída da participação social. Havia muitas pessoas à margem da sociedade e, para piorar a situação de sofrimento, sentiam-se abandonadas por Deus: “Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados” (Mc 1,32)
Ser pobre significava não ter existência social. A situação de opressão e escravidão deu origem a vários movimentos proféticos e messiânicos, especialmente na Galileia, região que fornecia trigo, vinho, óleo, carne e peixe e que, por isso mesmo, foi o território mais explorado e devastado. Entre os vários movimentos, podemos situar o de Jesus. A sua proposta de reino de Deus atraiu homens e mulheres que perderam suas terras e se encontravam sem reino. Por isso, Jesus proclama: “Felizes vós, os pobres” (Lc 6,20; Mt 5,3).

3. Conhecendo a proposta do Evangelho de Marcos
No norte da Galileia, por volta do ano 70 d.C., a comunidade de Marcos estava tentando seguir o projeto de Jesus de Nazaré. Além dos conflitos externos, como a violência, a fome e os apelos dos movimentos nacionalistas com o messianismo do rei, internamente a comunidade enfrentava conflitos étnicos e culturais. O modo de vida romano e a busca desenfreada de bens, poder e privilégios foram assimilados por muitas pessoas: “Concede-nos, na tua glória, sentarmo-nos, um à tua direita, outro à tua esquerda” (Mc 10,37).
Mas não obstante as dificuldades, a comunidade de Marcos procurava resgatar e seguir o projeto de Jesus de Nazaré, apresentando Jesus como o Messias servo e as condições para segui-lo. Entrar nesse discipulado exige “deixar as redes” e ter disposição para aprender de Jesus estratégias para a concretização do reino de Deus. É preciso sair e ultrapassar fronteiras. Só é possível construir o reino com base em relações tecidas na fraternidade e no serviço: “Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos” (Mc 10,43-44).
O Evangelho de Marcos nasce da necessidade da comunidade de pôr por escrito suas memórias sobre quem é Jesus, reforçando que ele não é o Messias do poder e da glória, pois seu messianismo passa pelo sofrimento e pela cruz. Eis alguns pontos principais desse texto:

1) Quem é Jesus de Nazaré. O evangelho apresenta Jesus como o Filho do homem na figura do servo sofredor, que veio conviver com as pessoas empobrecidas, exploradas e excluídas pelo império e seus colaboradores e libertá-las. Proclamou o reino de Deus a todas as pessoas, independentemente da etnia, da classe social, do gênero e da religião. A sua fidelidade ao projeto do reino da justiça e da fraternidade o levou a um confronto com os poderosos do seu tempo e, consequentemente, à cruz, mas Deus o ressuscitou: “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).
2) O seguimento de Jesus. Esse evangelho apresenta mulheres e homens que seguem Jesus desde a Galileia até Jerusalém, convivendo e aprendendo com ele. Com suas limitações, esse grupo assumiu a causa do reino de Deus, fundamentado na justiça e na solidariedade, no meio das pessoas que estavam à margem da sociedade, como mulheres, pobres, estrangeiros, crianças e doentes (Mc 1,31; 6,33; 7,28; 8,1; 10,13.46). Seguir Jesus implica assumir o mesmo caminho seu como servo sofredor: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar sua vida a perderá; mas o que perder sua vida por causa de mim e do evangelho, a salvará. Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e arruinar sua própria vida?” (Mc 8,34-36).

4. Uma estrutura possível para o Evangelho de Marcos
Há diversas propostas de estrutura para o Evangelho de Marcos. Para uma visão de conjunto, optamos pela divisão em três partes, seguindo o ministério de Jesus na Galileia e nos seus arredores, depois a caminhada para Jerusalém e, por fim, os últimos acontecimentos em Jerusalém.
Eis um breve esquema:

1) Primeira parte (1,1-8,26): a atividade de Jesus na Galileia e nas regiões vizinhas. Nesta etapa, temos a formação da comunidade, que se encontra com Jesus sempre em uma casa. A comunidade enfrenta vários problemas externos e internos, a saber: fome, doenças, individualismo, preconceito e, especialmente, a tentação de seguir o Messias como rei poderoso (Mc 1,34.44; 3,12; 5,43; 6,30-44; 7,36). Essa parte termina com a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26), indicando que a comunidade precisa abrir os olhos para compreender que Jesus é o Messias servo.
2) Segunda parte (8,27-10,52): a viagem para Jerusalém a partir da Galileia. É um caminho para compreender e aprofundar Jesus como o servo sofredor, com os três anúncios da paixão (Mc 8,31-33; 9,33-37; 10,32-34). É uma catequese sobre o seguimento de Jesus na vida cotidiana da comunidade. Ao anunciar o “caminho da cruz”, Jesus combate e corrige os discípulos que aspiram a poder e privilégios, atributos que transparecem na figura do Messias poderoso como Davi. Os versículos finais apresentam a cura do cego Bartimeu, que joga o manto, gesto que significa abandonar a visão messiânica de rei e seguir Jesus no caminho da cruz (Mc 10,46-52).
3) Terceira parte (11,1-16,8): o ministério de Jesus em Jerusalém com a sua paixão, morte e ressurreição. A prática libertadora de Jesus está em conflito com os poderes do mundo, por isso ele é condenado e morto como subversivo. Mas Deus não abandona o justo (Sb 2,18) e o ressuscita (Sl 22). Essa parte termina com a ordem de voltar para a Galileia, o local onde Jesus começou sua prática libertadora e onde exerceu por mais tempo esta atividade.
4) Acréscimo posterior (16,9-20). Como terminar um evangelho com o medo e o silêncio? Os versículos finais foram acrescentados depois e constituem uma síntese dos relatos das aparições de Jesus ressuscitado. Na origem, o evangelho era uma obra sem conclusão. Ela está em aberto e depende de que a pessoa que lê dê a sua resposta… É preciso ter coragem para voltar à Galileia.

O Evangelho de Marcos termina com uma ordem e o medo como resposta: “‘Não vos espanteis! Procurais Jesus de Nazaré, o crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito’. Elas saíram e fugiram do túmulo, pois um temor e um estupor se apossaram delas. E nada contaram a ninguém, pois tinham medo…” (Mc 16,6-7).
As mulheres recebem a ordem de comunicar aos seus que ele voltaria para a Galileia. Elas ficaram com medo, fugiram e nada disseram. É preciso afastar-se de Jerusalém, lugar do centro do poder, e voltar à Galileia, o lugar onde tudo começou. Segundo o Evangelho de Marcos, foi na Galileia que Jesus realizou grande parte de sua atividade missionária. Voltar à Galileia é assumir o seu projeto, e isso causa medo. Acreditar que Deus o ressuscitou é reafirmar a fé em Deus como o Senhor da vida. Apesar do medo, há grande esperança para os que seguem Jesus.
A nossa missão é anunciar que Cristo ressuscitou e nos precede na nossa Galileia: lugar onde a vida está ameaçada. Assumir o projeto de Jesus dá medo e, muitas vezes, é melhor fugir. É preciso viver a experiência de que há uma esperança: a força da vida é maior do que a morte. É preciso acreditar que “a pedra já foi removida!”

* Mestre e doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, graduada em Filosofia e Teologia e especialista em Comunicação Social. Atualmente, é professora em diversas faculdades de Teologia e assessora do Centro Bíblico Verbo. E-mail: ma-antonia@uol.com.br

 [f1]A meu ver, Jesus foi muito bem compreendido pelos poderosos, tanto é que decidiram matá-lo! Verificar se não seria o caso mudar para “não aceito…”, “rejeitado” ou algo semelhante.

Maria Antônia Marques